Como seria se um cão, tido como o mais fiel amigo do homem pudesse expressar o ponto de vista que têm sobre o tratamento que recebe de seus ditos “amigos”. O que será que este cachorro falaria? Será que nós nos damos conta do quanto somos verdadeiros monstros para os animais de uma forma em geral? Bem, segue abaixo o emocionante depoimento de um cão da raça pastor alemão:

Meu nome é Tote, tenho 5 anos de idade, apesar de parecer jovem já estou no grupo dos mais velhos da minha raça. O tempo pra mim neste planeta é muito curto, por isso tenho de fazer tudo com muita intensidade, pois daqui uns cinco anos no máximo já terei partido.
De minha mãe não me recordo muito, logo quando eu nasci fui arrancado dela alguns dias depois. Lembro apenas a saliva quente de sua boca no meu pescoço quando me ajeitava junto de meus irmãos na hora de mamarmos. Meu pai nem sei quem foi, nunca tive o mínimo contato com o tal cão reprodutor. Deve ter morrido já, depois de passar a vida cruzando com várias fêmeas. Meu material genético é dos bons, pensando o quê? Graças ao deus dos cachorros eu fui um filhote que foi destinado a ser vendido nas lojas de animais. Fiquei poucos dias na vitrine, ainda bem. Que local frio e triste. Aquele monte de humanos branquelos e feios, com seus filhotes mal educados, ali, em minha frente, rindo, batendo no vidro. Humanos velhos falando que odeiam cachorros. Eu ali com medo, apenas abanava o rabo para mostrar submissão e evitar acabar como alguns de meus iguais. Quando um filhote cresce rápido e não é vendido, muitas vezes ele acaba sendo sacrificado até. Que sorte que eu tive. Fui levado por um casal que foi com a minha cara. No início achei bacana. Pensei que realmente aquilo seria vida. Me pegaram no colo, fizeram um cafuné e me disseram como eu sou lindinho. Abanei o rabo com toda a força do mundo e para a nova casa fui feliz.
No início da minha vida na casa nova, por eu ser ainda um filhote, dormia dentro de casa. Me davam leite e ração selecionada. Que privilégio o meu. E pensar que vez por outra eu via algum outro cão abandonado no portão da casa, sem rumo. Eu tinha dó, mas não me fazia de rogado, latia com todas as forças que eu possuía para espantá-los. Vai que meus donos gostassem dele e me trocassem. Eu não poderia correr este risco, já tinha perdido minha família, tinha de me manter onde eu estava. Um dia fiz xixi no precioso chão de pano da sala da enorme casa dos humanos. Minha dona me deu um chute com seu pezão enorme. Rolei de costas, bati o focinho no chão. Ela então me pegou pelo pescoço e esfregou minha cara na urina. Dizia repetidas vezes para eu não fazer mais, que meu lugar de direito era no quintal. Gritou algumas palavras feias que os humanos costumam dizer quando estão furiosos. Lamentou o dia em que atendeu ao pedido dos filhotes dela em comprar um cãozinho. Chorei bastante naquele dia, fui dormir com dores e com a alma arrancada. Nunca mais passei perto daquele tapete. Nunca mais fui o mesmo com ela. A noite meu dono chegou, os filhotes dos humanos correram para o abraçar. Eu fiquei tímido, com as orelhas baixas, olhando de longe. Ele me pegou no colo, fez um carinho e perguntou por que eu estava mais comedido do que antes. Fiquei quieto, não lati nenhuma palavra, queria evitar alguma briga que me custasse o conforto de poder ter um teto. Nesta noite escutei uma conversa dos meus donos. Ela disse que eu já estava grande demais, era hora de eu ir ficar no quintal. E assim no dia seguinte eu estava do lado de fora da casa, com ordens expressas para não entrar em hipótese alguma.
Lá fora a vida se revelou outra. Escuridão, frio e fome. Muitas vezes se esqueciam de colocar a minha comida, em outras ocasiões até a água se esqueceram. Não que eu não me virasse, sei que meus ancestrais viviam em matilhas espalhadas nas florestas, bebendo água dos rios. Mas eram outros tempos. Tempos bons aqueles. O que aconteceu com a evolução que nos condenou a sermos prisioneiros de outra raça? Sabe o que é viver em um quintal? Sabe o que é dormir em uma casa de madeira sem portas? Sabe o que é se deitar no mesmo pano todas as noites por meses? Sabe o que é ver a sua comida cheia de formigas pela manhã? Não, vocês não sabem, dormem em casas quentes, confortáveis, guardam suas comidas em caixas enormes e geladas. Pensam que estão me dando a melhor comida do mundo. Há cinco anos que como a mesma ração. Imagine que você irá comer feijão no café, no almoço e janta, imagine só. O pior de tudo é que dizem que como a melhor comida que um cachorro poderia desejar. Não recebo visitas, não tenho parentes. Me colocaram para cruzar uma vez com uma cadela vistosa, de pelo liso e fofo. Me apaixonei perdidamente por ela, e tenho certeza que ela também gostou de mim. Mas foi apenas uma vez, nunca mais a vi e nem sei se meus filhos nasceram. Na certa ajudei a colocar mais órfãos abandonados no mundo. Sou resultado de um processo e inicio outro, e meus filhos continuarão a sina e assim por diante.
Hoje estou particularmente triste, meus antigos donos se mudaram, foram para uma casa em outra cidade, na verdade uma casa que tem várias outras empilhadas, e que lá os humanos não podem ter cachorros. Ouvi eles dizendo que era uma oportunidade de emprego. Meu dono me acariciou muito hoje, as crianças, já maiores, choraram. O certo é que apenas se lembraram que eu estava vivo e que algum dia gostaram de mim e os alegrei. Há muitos dias que não as via. Minha dona apenas me olhou com cara de quem se livrava de um fardo. Pouco me importo com ela. Só sei que fiz tudo certinho. Corri atrás das bolinhas, lati para pessoas estranhas na rua que parecessem ameaçadoras, nunca mais entrei em casa, não lati demais a noite para não acordar meus donos e os vizinhos. Mesmo assim minha recompensa de continuar sendo o cãozinho da família não veio. Irei para a chácara de um conhecido deles. Lá me prometeram que poderei ficar mais solto, brincar com outros cachorros. Mas é certo que não terei mais a minha tediosa ração. Irei ter de comer arroz puro. Quem mandou eu reclamar? Eu era feliz e não sabia. Não terei mais minha casa de madeira sem porta. Na verdade viverei em um espaço fechado com outros cachorros. Terei pulgas e carrapatos. Vez por outra terei uma briga com algum cachorro mais abusado temendo perder pra mim aquilo que ele julgava ser o melhor dos destinos, como eu pensava sobre o meu há um tempo atrás. De lá devo partir para o céu dos cachorros, pois como eu disse me resta pouco tempo de vida. Só espero que meu dono neste céu não me bata se eu fizer xixi em alguma nuvem branquinha.
Daniel Gimenes